
Você abriu o laudo do seu exame, leu a sigla HPV e sentiu o coração disparar. Em seguida, buscou respostas na internet e a primeira palavra associada ao resultado foi câncer, trazendo aquele medo imediato de que algo grave já esteja acontecendo no seu corpo.
Se você se identificou com essa cena, respire fundo. Pare por um instante e acompanhe esta leitura.
A primeira certeza que você precisa ter: um exame positivo para HPV não significa que você tem ou terá câncer. Receber um resultado com termos médicos desconhecidos causa uma sensação natural de perda de chão, mas a informação correta e fundamentada na ciência é o caminho que devolve a sua serenidade.
O Papilomavírus Humano (HPV) é uma família de vírus que afeta o epitélio da pele e das mucosas, especialmente as regiões genital, anal e a cavidade oral. A principal forma de transmissão é o contato íntimo pele a pele, mesmo sem penetração.
Mais de 80% das pessoas sexualmente ativas entrarão em contato com algum tipo de HPV ao longo da vida. Trata-se de uma infecção extremamente comum e, na grande maioria das vezes, passageira: em até 90% dos casos, o próprio sistema imunológico elimina o vírus espontaneamente em até dois anos, sem deixar sequelas ou causar alterações nas células.
Existem mais de 200 genótipos catalogados de HPV. Para a conduta clínica e o acompanhamento na patologia do trato genital inferior, nós os dividimos em dois grandes grupos: baixo risco e alto risco oncogênico.
Os tipos de baixo risco não possuem potencial de transformação para o câncer do colo do útero. Eles são responsáveis pelas verrugas genitais (condilomas acuminados), lesões benignas que podem causar incômodo estético ou desconforto local, mas que não representam risco à sua vida.
Os genótipos de alto risco exigem atenção preventiva porque possuem mecanismos biológicos capazes de interferir no ciclo de replicação celular caso permaneçam ativos por longos períodos. Dentre os mais de 200 tipos conhecidos, cerca de 12 a 14 são classificados como oncogênicos:
O HPV, isoladamente, não causa lesões graves de forma imediata. O verdadeiro fator de risco não é ter tido contato com o vírus, mas sim a sua persistência prolongada pelo mesmo genótipo (persistência tipo-específica).
Para ilustrar: se no exame deste ano você apresentou HPV 16 e, na reavaliação do ano seguinte, o tipo 16 foi negativado e surgiu o HPV 31, o quadro não piorou. O seu sistema imune eliminou com sucesso o tipo 16; o resultado atual reflete um novo contato ou a detecção transitória de outro subtipo. Não houve persistência daquele primeiro vírus.
A atenção médica se volta para os casos em que o mesmo subtipo de alto risco contorna a resposta imune e permanece ativo no epitélio por anos consecutivos.
Nessa situação de persistência, o vírus interfere no controle de divisão celular do colo uterino, favorecendo o surgimento de alterações desorganizadas conhecidas como lesões de alto grau (pré-cancerosas). Trata-se de um aviso biológico que surge anos antes de qualquer evolução desfavorável.
Como essa história natural é lenta — costuma levar de 10 a 15 anos para que uma lesão precursora não tratada progrida —, os exames preventivos (o PCR para HPV e o preventivo/citologia) oferecem uma ampla janela de oportunidade para identificar o vírus e tratar as alterações precocemente.
Não. O câncer é um desfecho raro e prevenível da infecção por HPV.
A grande maioria das infecções — inclusive as causadas por tipos de alto risco — é transitória e combatida pelas defesas do próprio organismo. O câncer só encontra espaço para se desenvolver se o mesmo vírus oncogênico persistir por muitos anos sem nenhum acompanhamento especializado e sem o tratamento das lesões precursoras.
O diagnóstico de HPV não é uma sentença de doença; é apenas um ponto de partida para um acompanhamento médico atento, calmo e seguro.
Se você recebeu o resultado de HPV, alteração no preventivo ou o seu ginecologista solicitou o exame de colposcopia, agende a sua avaliação trazendo os seus laudos anteriores. No consultório, cada detalhe do exame é explicado com clareza e transparência para que você compreenda seu diagnóstico com total tranquilidade.
Artigo por Dra. Flávia Menezes (CRM RJ: 62429-2 / RQE: 51496) – Ginecologista com qualificação em patologias do trato genital inferior e colposcopia (2009).
Consultório: Av. Rio Branco, 156, sala 2805 – Centro, Rio de Janeiro (ao lado do metrô da Carioca)
Agendamentos via WhatsApp: (21) 96778-8617
Referências Científicas