
Receber um teste positivo para HPV ou descobrir uma alteração no Papanicolau costuma trazer uma dúvida quase imediata:
“Vou precisar de tratamento?”
Nem sempre.
Essa é uma das informações mais importantes para entender o HPV: não tratamos simplesmente a presença do vírus. O que pode precisar de acompanhamento ou tratamento são as alterações que ele provoca.
Na maioria das pessoas, o próprio organismo controla a infecção ao longo do tempo. Algumas alterações celulares também podem desaparecer espontaneamente.
Outras, porém, precisam ser tratadas para impedir que evoluam.
Por isso, a decisão não depende apenas de saber se o HPV está presente. É preciso entender qual alteração existe e qual é o risco daquela paciente.
Na maioria das vezes, um teste positivo para HPV de alto risco, isoladamente, não significa que seja necessário fazer algum procedimento para retirar uma lesão.
O teste identifica tipos do vírus associados ao desenvolvimento das lesões precursoras do câncer do colo do útero.
A partir desse resultado, dependendo do tipo de HPV identificado, da idade, dos exames anteriores e de outros achados, pode ser indicado repetir exames, complementar a investigação ou realizar uma colposcopia.
Portanto: ter um teste positivo para HPV e ter uma lesão que precisa de tratamento são situações diferentes.
Hoje, as decisões são cada vez mais baseadas no risco individual.
Isso significa que o médico não analisa um exame isoladamente.
Dependendo de cada situação, podem ser considerados:
Nem todas as mulheres precisarão realizar todos esses exames.
A combinação dessas informações é que ajuda a definir se a paciente pode simplesmente continuar sendo acompanhada ou se é necessária uma investigação ou tratamento.
Em 2025, o Brasil passou a adotar o teste molecular para HPV de alto risco como exame primário do rastreamento organizado do câncer do colo do útero.
Essa mudança é importante porque o teste de HPV apresenta maior sensibilidade para identificar mulheres que possuem risco de desenvolver lesões precursoras.
Isso não significa que o Papanicolau tenha perdido sua importância.
O exame citológico continua sendo utilizado como complemento em determinadas situações e permanece como método de rastreamento nos locais onde o teste molecular ainda não está disponível.
Além disso, teste de HPV e Papanicolau fornecem informações diferentes:
Dependendo dos resultados encontrados e do risco estimado, o médico pode indicar a colposcopia.
A colposcopia permite examinar o colo do útero com magnificação e iluminação adequadas e identificar áreas que mereçam uma avaliação mais detalhada.
Durante o exame, é possível observar:
É importante esclarecer: fazer colposcopia não significa necessariamente fazer biópsia.
A biópsia é realizada quando os achados do exame indicam necessidade de analisar uma pequena amostra do tecido.
Quando uma biópsia mostra NIC 1, estamos diante de uma alteração de baixo grau.
Na maioria das vezes, a NIC 1 apresenta grande possibilidade de regressão espontânea.
Por isso, geralmente a melhor conduta é acompanhar, em vez de tratar imediatamente.
Isso evita procedimentos desnecessários em alterações que provavelmente desapareceriam sem intervenção.
O intervalo e os exames utilizados nesse acompanhamento dependem dos resultados atuais e anteriores de cada paciente.
A NIC 2 é uma lesão de alto grau, mas sua condução merece uma avaliação individualizada.
Em determinadas pacientes, especialmente quando existe preocupação com futuras gestações e todas as condições necessárias para um acompanhamento seguro estão presentes, pode ser possível considerar uma conduta conservadora.
Em outras situações, o tratamento é a melhor opção.
A decisão depende de fatores como idade, desejo reprodutivo, extensão e localização da lesão, resultados anteriores e possibilidade de manter acompanhamento rigoroso.
Por isso, um diagnóstico de NIC 2 não deve ser interpretado isoladamente.
Em geral, sim.
A NIC 3 é uma lesão precursora de alto grau e possui potencial de progressão quando permanece sem tratamento.
Nas pacientes não grávidas, a conduta habitualmente recomendada é remover a lesão.
O objetivo do tratamento é justamente interromper esse processo antes que exista oportunidade de desenvolvimento de um câncer invasivo.
Essa é uma das grandes vantagens da prevenção do câncer do colo do útero: identificar e tratar suas lesões precursoras antes que elas tenham tempo de evoluir.
Quando existe indicação de tratamento, uma das possibilidades é realizar um procedimento excisional, que retira a região do colo do útero onde está localizada a alteração.
Entre esses procedimentos está a conização por CAF.
A alça de alta frequência permite remover a área alterada e obter uma peça que será posteriormente analisada pelo patologista.
Essa análise fornece informações importantes sobre o diagnóstico, a extensão da lesão e as margens do tecido retirado.
Existem também métodos ablativos, nos quais o tecido alterado é destruído em vez de removido, mas sua utilização depende de critérios específicos.
Não existe um único tratamento adequado para todas as lesões.
Quando existe indicação de uma excisão do colo do útero, o objetivo não é simplesmente “retirar o máximo possível”.
É importante remover adequadamente a área de risco e, ao mesmo tempo, preservar o máximo de tecido cervical saudável que for compatível com um tratamento seguro.
Esse cuidado tem importância especial para mulheres que desejam engravidar futuramente.
Procedimentos excisionais mais extensos ou repetidos podem aumentar o risco de alguns desfechos obstétricos.
Isso não significa deixar de tratar uma lesão de alto grau quando existe indicação.
Significa escolher um procedimento proporcional ao diagnóstico, à localização e à extensão da lesão encontrada.
As Diretrizes Brasileiras publicadas em 2025 representam um grande avanço e foram elaboradas para estruturar o rastreamento organizado do câncer do colo do útero e os fluxos assistenciais no Sistema Único de Saúde (SUS).
Protocolos de saúde pública precisam estabelecer condutas que possam ser aplicadas com segurança a grandes populações, considerando também a estrutura da rede, disponibilidade de exames e capacidade de garantir acompanhamento.
Na assistência individual, inclusive na rede particular, a conduta pode ser personalizada de acordo com o histórico da paciente, seus exames anteriores, os resultados atuais e o risco estimado.
Isso não significa ignorar as diretrizes.
Significa utilizar as evidências científicas e os protocolos como referência, considerando também as características de cada paciente.
Por esse motivo, duas mulheres com testes positivos para HPV podem receber recomendações diferentes sem que uma das condutas esteja necessariamente incorreta.
Sim.
O tratamento de uma lesão de alto grau não encerra o acompanhamento.
Mulheres que já tiveram NIC 2, NIC 3 ou outras lesões precursoras importantes mantêm um risco diferente daquele das mulheres que nunca apresentaram essas alterações e, por isso, precisam continuar o seguimento recomendado.
O teste para HPV tem papel importante nesse controle após o tratamento.
Por isso, realizar o tratamento corretamente e manter o acompanhamento posterior são partes do mesmo cuidado.
De forma resumida:
Portanto, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente “qual é o tratamento para HPV?”, mas:
“Existe alguma alteração que realmente precisa ser tratada?”
E essa resposta só pode ser dada depois de avaliar corretamente os exames e, quando indicada, realizar a colposcopia e a biópsia.
Se durante a sua rotina ginecológica o seu médico assistente identificou alterações no preventivo ou solicitou o exame de colposcopia para investigar o colo uterino, convido você a agendar o seu exame comigo trazendo o seu encaminhamento médico.
No consultório, cada detalhe visual é examinado com rigor técnico, calma e acolhimento — afinal, entender o que está acontecendo com clareza ajuda a reduzir a ansiedade e permite definir os próximos passos com segurança.
Dra. Flávia Menezes
Ginecologista e Colposcopista
CRM RJ: 52.62429-2 | RQE: 51496
Qualificação em Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC, 2009)
Mais de 30 anos de prática médica dedicada à saúde da mulher (formada pela UFRJ em 1996) e mais de 15 anos de consultório dedicado exclusivamente à colposcopia
Consultório: Av. Rio Branco, 156 / Sala 2805 – Centro do Rio de Janeiro (ao lado do Metrô Carioca)
WhatsApp para agendamentos: (21) 96778-8617